16/01/2011

Menino é Encontrado a 4 Km de Casa Após Ser Arrastado Pela Enxurrada



Marcus Vinícius passou por cirurgia para reparar pele arrancada quando ele foi arrastado pela água. O menino se emocionou ao encontrar voluntário que participou do resgate. A mãe do Marcus morreu.

A repórter Sônia Bridi acompanhou o trabalho de voluntários nos primeiros dias da tragédia. Ela percorreu um cenário de destruição, mas de muita solidariedade também.

E conheceu o menino Marcus Vinícius, de 11 anos, que viveu uma história impressionante. Levado pelas águas por quatro quilômetros, ele foi salvo por um voluntário.

Na primeira noite depois da tragédia, o ginásio era pequeno para tanta gente. É a solidariedade que evita o caos. Chega um caminhão, e são tantas mãos para descarregar que ele chega e vai embora em três minutos. Nas arquibancadas, as doações vão de mão em mão sendo organizadas e distribuídas. Onde tem alguém sofrendo, há um conforto sendo oferecido.

O voluntário Alexandre Silva não parou desde a madrugada. Assim que deixou o bairro onde sua casa caiu, passou de vítima a voluntário. “Não adianta eu ficar aqui de braços cruzados. Tenho que fazer alguma coisa pra ajudar”, diz. “Eu sinto a dor que a minha mãe está sentindo, porque eu não gosto de chorar na frente dela, porque vai mostrar mais tristeza para ela. Havia um sonho que a água levou”, conta.

A água levou a casa, a lavoura e metade da família do lavrador Edmar Gregório da Rosa. “A minha esposa faleceu, um garoto e minha netinha. Acabou tudo. Desceu mais de 500 metros de terra em cima da gente. Tem a minha filha de 4 anos que ficou e a de 20 que precisa muito de mim. Aliás, a gente precisa um do outro”, ressalta.

No ginásio, eles compartilham o espaço, a dor e a esperança. Outro caminhão chega, mas não traz donativos. Do baú, saem 70 pessoas levadas por alguém que pensou em oferecer ajuda.

Seguimos o caminho de volta e encontramos a brigada de voluntários formada por profissionais de todas as áreas, treinados para emergências.

É madrugada, e esperamos amanhecer para segui-los em um terreno perigoso. Os caminhos estão bloqueados pela terra ou foram levados por ela. No meio da subida, encontramos moradores já sem água potável.

Avançamos pelo lodaçal. Os rapazes dizem que querem sair, mas querem ajuda para tirar os corpos dos vizinhos que eles mesmos resgataram. O lugar está bem na rota de uma casa que ameaça desabar. O terreno parece líquido.

Os pés afundam no barro para não macular de novo a vítima da lama. É preciso um esforço imenso. Os rapazes descem com seus corpos. E nós seguimos em busca dos sobreviventes.

Em uma casa, três mulheres resistem, apesar de o muro ter caído e de a casa estar em perigo. Em um quarto, está uma mulher de 88 anos que as outras abrigaram depois que a casa dela caiu. A velhinha está ferida e em choque. Eles improvisam uma maca com uma cama. Protegem a mulher frágil do frio e da chuva e vão subindo. Duzentos metros morro acima, até uma casa segura e que já abriu as portas para quatro famílias desabrigadas.

No alto do morro, o povo está isolado. Só os voluntários chegaram ao local, e estamos a apenas 20 minutos do centro de Teresópolis. Sem orientação, não eles sabem o que fazer. Na escola, não tem espaço para tanta gente. A comida é pouca comida, e faltam remédios.

A decisão difícil que tem que ser tomada nessa comunidade agora é: faz-se um comboio levando todas as pessoas e passando pelas áreas instáveis que ainda podem deslizar ou deixa todo mundo no local esperando?

Há o risco de mais deslizamentos na região. A chuva aperta, e o caminho por onde viemos está perigoso demais. Muitas famílias decidem ir, levam os filhos, uns poucos objetos e começam a jornada subindo para tentar descer pelo outro lado do morro. Decidimos também tentar essa rota, quando uma mulher se aproxima. Ela faz um pedido Sônia Bridi: “a gente não morreu. A minha filha está desesperada pensando que eu morri”. A repórter afirma que vai avisar à filha dela quando chegar do outro lado.

Em vários pontos, o morro desceu, cruzou a estrada e continuou sua rota de destruição. Na região, tudo parece por um fio, tudo está fora do lugar e prestes a desabar.

O asfalto possui uma enorme rachadura. O chão está se abrindo ao longo de toda a estrada. A repórter Sônia Bridi percebe que há sinal de celular e cumpre a promessa feita no alto. Ela liga para Roberta e avisa que a mãe está bem. O nervosismo e o alívio podem ser sentidos do outro lado da linha.

Mais adiante, uma mulher sofre da mesma angústia. Na beira da estrada, ela espera que a filha desça o morro com as netas.

É como se as montanhas estivessem se desmanchando, derretendo. A geografia mudou em poucos minutos, lembrando que nada mais se assemelha ao normal. Até que a realidade aparece crua. A repórter encontra homens carregando corpos, e é assim o tempo todo. São corpo e mais corpos passando em todos os morros.

A vista de Campo Grande é desoladora. Do fundo do vale, veio a avalanche que arrasou a comunidade de mais de mil pessoas.

O vigilante Paulo Henrique Vieira correu para fora de casa quando a água subiu. “Eu só escutava pessoas gritando. Estava chovendo muito, o rio subindo”, lembra. “Tinha muita casa nessa reta aqui. Era casa pura. Esse lado aqui era casa debaixo e em cima”.

Em cima do morro, moravam muitos parentes. “Tem minha tia que acharam ali embaixo. Acho que não acharam o filho dela. Meu primo também não acharam”, afirma Paulo Henrique.

Imagens do Google Earth mostram como era a comunidade de Campo Grande antes da tragédia. O cenário hoje é de destruição.

Paulo Henrique estava em casa com o pai, o irmão Marcos, de 11 anos, e a madrasta. “Eles saíram e foram para o quarto do meu irmão para ver o rio. O rio estava passando embaixo ainda”, conta.

De repente, a água invadiu a casa e jogou os três para fora. A mulher morreu. O pai foi encontrado vivo a alguns metros de casa. E o irmão foi resgatado duas horas depois pelo brigadista voluntário Cleiton Pimentel e sua equipe. “Ele estava deitadinho, encolhido, tremendo muito, perdendo muito sangue, com um corte profundo na cabeça, mas ele estava lúcido e conversando. Mas ele estava sem visão. Ele disse: ‘não estou enxergando porque eu vim batendo a cabeça nas pedras”, conta.

O menino foi arrancado de dentro de casa pela água, carregado pelo turbilhão, em meio aos destroços, à medida que o rio ia abrindo novo curso. A velocidade da água na hora da tragédia pode ter chegado a 100 quilômetros por hora. Ele foi sendo arremessado contra as pedras, até finalmente parar a quatro quilômetros da casa dele.

Ele foi encontrado sobre uma pilha de escombros, em meio a muitos corpos. “Possivelmente em 10 a 20 minutos, ele estaria morto, porque ele estava perdendo muito sangue, muito ferido. Foi uma coisa impressionante, um milagre, porque ele estava lúcido, conversando”, lembra o brigadista voluntário Cleiton Pimentel.

Dois dias depois, Marcos Vinícius passou por uma cirurgia para reparar parte do tecido da pele, arrancado enquanto ele era arrastado pela água. A avó do menino espera no quarto.

Ainda sedado, Marcos reconheceu Cleiton. Há dias sem descanso, ajudando estranhos, o voluntário se emociona ao ver o milagre que só ajudou a completar. “É uma sensação de satisfação de salvar uma vida e, muitas vezes, de impotência de ver essa desgraça, essa tragédia”, comenta o brigadista voluntário.

A tragédia espera lá fora. Os voluntários se vão. Marcos sofre com a dor, e a avó dá carinho. A filha dela, mãe do menino, está sendo sepultada na mesma hora, e ela ficou no hospital para apoiar a vida.



Fonte:
Fantástico
Edição 16/01/2011

Um comentário:

  1. eu sou o menino e te digo mais so me ligar 02174438313

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